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Wednesday, 28 June 2017
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Vicente Celestino - Songtexte


Album Unknown - Album




O Ébrio


 
Recitativo - Falado : Nasci artista. Fui cantor. Ainda pequeno levaram-me para uma escola de canto. O meu nome, pouco a pouco, foi crescendo, crescendo, até chegar aos píncaros da glória. Durante a minha trajetória artística tive vários amores. Todas elas juravam-me amor eterno, mas acabavam fugindo com outros, deixando-me a saudade e a dor. Uma noite, quando eu cantava a Tosca, uma jovem da primeira fila atirou-me uma flor. Essa jovem veio a ser mais tarde a minha legítima esposa. Um dia, quando eu cantava A Força do Destino, ela fugiu com outro, deixando-me uma carta, e na carta um adeus. Não pude mais cantar. Mais tarde, lembrei-me que ela, contudo, me havia deixado um pedacinho de seu eu: a minha filha. Uma pequenina boneca de carne que eu tinha o dever de educar. Voltei novamente a cantar mas só por amor à minha filha. Eduquei-a, fez-se moça, bonita... E uma noite, quando eu cantava ainda mais uma vez A Força do Destino, Deus levou a minha filha para nunca mais voltar. Daí pra cá eu fui caindo, caindo, passando dos teatros de alta categoria para os de mais baixa. Até que acabei por levar uma vaia cantando em pleno picadeiro de um circo. Nunca mais fui nada. Nada, não! Hoje, porque bebo a fim de esquecer a minha desventura, chamam-me ébrio. Ébrio...





Tornei-me um ébrio e na bebida busco esquecer

Aquela ingrata que eu amava e que me abandonou

Apedrejado pelas ruas vivo a sofrer

Não tenho lar e nem parentes, tudo terminou

Só nas tabernas é que encontro meu abrigo

cada colega de infortúnio é um grande amigo

Que embora tenham como eu seus sofrimentos

Me aconcelham e aliviam o meu tormento

Já fui feliz e recebido com nobreza até

Nadava em ouro e tinha alcova de cetim

E a cada passo um grande amigo que depunha fé

E nos parentes... confiava, sim!

E hoje ao ver-me na miséria tudo vejo então

O falso lar que amava e que a chorar deixei

Cada parente, cada amigo, era um ladrão

Me abandonaram e roubaram o que amei

Falsos amigos, eu vos peço, imploro a chorar

Quando eu morrer, à minha campa nenhuma inscrição

Deixai que os vermes pouco a pouco venham terminar

Este ébrio triste e este triste coração

Quero somente que na campa em que eu repousar

Os ébrios loucos como eu venham depositar

Os seus segredos ao meu derradeiro abrigo

E suas lágrimas de dor ao peito amigo





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